“Há décadas em que nada acontece e há semanas em que décadas acontecem.” — Vladimir Lênin.
O que aconteceu no Brasil nos quinze dias finais das eleições pode ser sintetizado nessas palavras atribuídas ao líder revolucionário russo Vladimir Lênin.
Em apenas quinze dias, os brasileiros absorveram conhecimento político, ampliaram sua compreensão sobre os interesses em disputa e descobriram que são capazes de tomar em suas próprias mãos os rumos da história, definindo seu futuro, mesmo quando isso significa contrariar interesses imperiais e poderosos.
Esse ganho de consciência política representa um acúmulo positivo para a sociedade. A população passa a se perceber como sujeito ativo da história, capaz de compreender os mecanismos de poder, dominar o processo político e fazer valer seus próprios interesses. Não se trata apenas de escolher representantes nas urnas, mas de reconhecer a própria capacidade de influenciar os destinos do país.
O processo de aprendizado político foi tão acelerado e intenso que poderá provocar mudanças profundas na maneira como a população exerce a cidadania e se organiza para enfrentar as lutas sociais que estão por vir.
Ficou evidente o empoderamento de amplos setores da sociedade, especialmente jovens, mulheres, idosos, movimentos culturais, organizações de base, coletivos sociais e instituições como as universidades e o SUS. As próprias urnas também se reafirmaram como instrumentos fundamentais da soberania popular e da democracia.
Uma das consequências mais significativas desse processo foi o amadurecimento político demonstrado no uso das redes sociais. Houve uma evolução na capacidade de organização, articulação e produção de conteúdo, revelando uma inteligência coletiva popular que conseguiu disputar espaços digitais até então amplamente ocupados por grupos extremistas de direita.
A população aprendeu a utilizar melhor essas ferramentas, a identificar informações falsas, a confrontar narrativas manipuladoras e a construir redes de comunicação e mobilização. A extrema direita, que em eleições anteriores parecia dominar com facilidade a circulação de informações nas redes, encontrou uma sociedade mais preparada para reagir, contestar e disputar a opinião pública.
É evidente que a política brasileira entrou em um novo patamar. Uma parcela expressiva da população descobriu sua força e se sente muito mais capaz de influenciar decisões, disputar narrativas e interferir diretamente nos rumos da política nacional.
Esse novo cenário poderá produzir grandes crises e disputas políticas em 2027. De um lado, uma sociedade que demonstrou maior capacidade de mobilização e participação; de outro, um Congresso Nacional cuja composição majoritária não necessariamente corresponde às expectativas e aos projetos de transformação social expressos por essa mobilização popular. A agenda econômica, as reformas estruturais e os interesses representados no Parlamento serão, certamente, terrenos de intensos conflitos.
Caberá ao governo Lula exercer a liderança política desse processo, caso consiga transformar a força demonstrada nas urnas em capital político duradouro. Isso exigirá mais do que articulação institucional: será necessário manter os canais de diálogo com a sociedade, estimular a mobilização popular e criar condições para que essa energia coletiva pressione democraticamente o Parlamento pela aprovação de reformas mais profundas, voltadas à justiça social, à redução das desigualdades e à construção de uma economia mais justa.
O fato é que alguma coisa importante mudou. E talvez a maior transformação não esteja apenas no resultado eleitoral, mas na experiência política acumulada pela população durante esse processo.
O bolsonarismo, que nos últimos anos pareceu ocupar todos os espaços da vida política nacional, poderá encontrar dificuldades crescentes para reproduzir sua antiga capacidade de mobilização e influência. Isso não significa seu desaparecimento automático, mas aponta para uma nova conjuntura, na qual a sociedade demonstrou que pode disputar espaços, construir alternativas e enfrentar forças que pareciam imbatíveis.
Se em quinze dias foi possível acumular tanto conhecimento, tanta experiência e tanta capacidade de organização, é razoável imaginar que os efeitos desse aprendizado ultrapassem em muito o calendário eleitoral.
Afinal, quando um povo descobre sua própria força política, a eleição deixa de ser apenas um momento de escolha e passa a ser também um ponto de partida para novas conquistas democráticas e sociais.
Gerson Marques

Nenhum comentário:
Postar um comentário