terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Iemanjá não é palco. É fé. Por Emenson Silva


O dia 02 de fevereiro não é um detalhe no calendário. Não é uma data decorativa, tampouco um pretexto para mais um palco montado, mais uma banda contratada, mais um post bonito nas redes sociais da Prefeitura. O dia 02 de fevereiro é dia de Iemanjá. E isso, por si só, deveria bastar.

Falo como cidadão de Ilhéus. Falo como professor. Mas falo, sobretudo, como homem de fé, que aprendeu desde cedo que o sagrado não se negocia e que tradição não se improvisa.

O que temos assistido nos últimos tempos é um movimento preocupante de esvaziamento simbólico da Festa de Iemanjá. Um processo silencioso, mas eficiente, de transformar uma celebração ancestral em um produto institucional, onde a fé vira pano de fundo e o holofote aponta sempre para o mesmo lugar: o poder público.

Não se trata aqui de ser contra festa, música ou manifestação cultural. O problema começa quando o chamado “profano” passa a ocupar todo o espaço e o sagrado é empurrado para as margens. Quando a devoção vira cenário. Quando o tambor perde voz para o trio elétrico. Quando a oferenda é tratada como folclore e não como rito.

Mais grave ainda é perceber que, diante de um impasse histórico e legítimo entre os próprios grupos religiosos, a Prefeitura não opta pelo caminho mais óbvio e respeitoso: o diálogo. Ouvir quem faz a festa acontecer há décadas. Sentar com as lideranças. Construir coletivamente. Unificar não apenas no discurso, mas no propósito.

Ao invés disso, o que se apresenta é uma lógica perigosa: se não houver acordo entre vocês, eu faço a minha festa. Uma festa “oficial”. Uma festa “da Prefeitura”. Uma festa com assinatura, com logomarca, com agenda, com foto aérea. Uma festa que resolve o problema administrativo, mas ignora completamente o problema espiritual.

Isso não é mediação. Isso é sequestro simbólico.

Quando o Estado se coloca acima da fé, quando transforma a tradição em vitrine e ameaça substituí-la por um evento próprio, o recado é claro: o que importa não é Iemanjá, são as manchetes. Não é o povo de santo, é o engajamento. Não é o respeito, é o alcance.

Ilhéus gosta de se vender como terra do sincretismo, mas continua tratando as religiões de matriz africana como algo tolerável, nunca central. Aceita desde que não incomode, desde que não reivindique protagonismo, desde que não exija escuta.

O que está em jogo aqui não é apenas uma festa. É o reconhecimento de que existem pessoas que vivem o 02 de fevereiro como um dia de obrigação, de entrega, de silêncio e de reverência. Pessoas que não querem palco, querem respeito. Que não querem banda, querem licença para cultuar. Que não querem favor do poder público, querem que ele não atrapalhe.

No editorial que escrevi sobre o Dia de Todos os Santos, em novembro de 2025, eu disse que a intolerância, muitas vezes, não grita. Ela se manifesta no silêncio, na omissão, no gesto institucional que parece neutro, mas escolhe um lado. Aqui, mais uma vez, vemos o sagrado sendo instrumentalizado, domesticado, adaptado à lógica do evento e não da fé.

Iemanjá não precisa de Prefeitura para existir. Nunca precisou. Mas o poder público precisa decidir se quer ser ponte ou muro. Se quer fortalecer uma tradição ou usá-la como pano de fundo para sua própria promoção.

O dia 02 de fevereiro não é da gestão. Não é do prefeito. Não é do marketing. É de Iemanjá. E quem não entende isso, talvez ainda não tenha aprendido que fé não se administra. Se respeita.

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